Breves Histórias Cotidianas






 



 

 



15/04/2005 02:18



Deixar Rolar

As mangueiras em flor. Os bancos da praça pedindo pintura nova. O velho carvalho todo pichado. A paisagem tão conhecida. O bom dia ao padeiro, ao jornaleiro. Os gestos tão rotineiros. Tudo isso lhe fará falta. O médico recomendou mudar-se para o interior. E a família inteira se mobilizando para que isso aconteça. Por inércia, não dizia aos filhos que sair dali seria apressar sua morte. Ou talvez quisesse que fosse assim. Sempre fora ansioso, não queria mesmo morrer um pouco todo dia. Tinha pressa.

Ady Cavalcante

enviada por ZerooreZ



01/04/2005 02:24


Cara a Cara

Ele ligava todos os dias, às 15h. Pontualmente. Na primeira vez ele ligou por engano. Depois, disse que gostou da minha voz e perguntou se podia ligar de novo. Falei que sim. Ele também tinha uma voz bonita, meio rouca, parecia sempre que havia acabado de acordar. Nos falávamos por quinze, vinte minutos. Amenidades. Com o tempo, nossos papos tornaram-se mais e mais interessantes. Passaram a ser quarenta, cinqüenta minutos. Nunca faltava assunto. Tinha a impressão de que nos conhecíamos de outra vida, tal era a sintonia. Ficava ansiosa quando ele atrasava alguns minutos. Até que combinamos de nos conhecer. Eu iria de branco, ele de azul. Barzinho à meia-luz, música tranqüila, tudo conspirava a nosso favor. Nos olhamos. Nos olhamos. E nada. Nada aconteceu. Não reconheci a pessoa por quem havia me apaixonado. A decepção foi visível. No fim da noite o sentimento que nos unia era o alívio. Durante uma semana não nos falamos. Até que ele ligou de novo. E me deu seu número. Hoje nos falamos com freqüência. A magia continua, mas só rola através do telefone. Somos felizes assim, diferentes das outras pessoas. Pra quê estragar isso?

Ady Cavalcante

enviada por ZerooreZ



28/03/2005 00:25


Uma Coisa de Cada Vez

Subiu a escada como se estivesse num sonho, algo bem distante. Como se não fosse ela mesma. A placa lá embaixo dizia: “Massagem e Relaxamento / 3º andar “. Uma garota da empresa havia indicado, disse que o homem era bom. Competente e rápido. Era o que ela precisava. E enquanto subia, enumerava todos os argumentos possíveis para justificar o que faria dali a pouco. Estava desempregada, morando de favor na casa da irmã. Tinha tomado todos os cuidados, mas aconteceu. Aconteceu justo com ela. Por quê? Por quê? Não sabia. Também não havia sido fruto de um relacionamento, foi só um lance de pele. Conhecera o cara num barzinho, atração incontrolável. Incontrolável? Estava meio alta, mas lembrou da camisinha. Meu Deus, e se o cara não fosse saudável? Tinha de parar com a paranóia. Tinha de fazer exames, assim que resolvesse “aquilo”. Parou em frente à porta. Ainda não estava certa. Voltaria no dia seguinte.

Ady Cavalcante

enviada por ZerooreZ



18/03/2005 05:23


Hora do Almoço

11h55. Toca o ramal 25. Ela Atende. Fica aí me esperando. 12h05. Ele entra na sala. Ela está de pé encostada em sua mesa. Sem troca palavras começam a se beijar. 12h07. O rosto dela está contra a parede e seu corpo é pressionado pelo dele. Sua bunda sente a rigidez do falo. Pernas estão tremendo. 12h10. Vou te comer. / Aqui não...você é louco. / Se eu não fosse você não gostaria de mim... / Mas e se algu... / Cala a boca! 12h12. Sua saia está levantada e sua calcinha na altura do joelho. Habilidade para colocar a camisinha. 12h13. Começam cinco minutos de penetrações rápidas e profundas. Respirações ofegantes. Gemidos contidos. Vozes passantes no lado de fora da sala. 12h18. Bruscamente ele a solta e se recompõem. 12h20. Ele sai da sala sem se despedir. 12h30. No refeitório da empresa, em mesas separadas e distantes uma da outra, os dois almoçam. De sobremesa, Romeu e Julieta.

Romeu e Julieta, que coisa mais careta, careta...

ZeRo S/A

enviada por ZerooreZ



14/03/2005 20:28


Família

Estava quase na hora de as crianças chegarem da escola. Tinha que correr para terminar o jantar. Frango assado, arroz branco, soltinho, feijão com lingüiça. E batata frita, paixão do caçula. O suco de laranja faria na hora, para não perder as propriedades da vitamina C. Ainda tinha que arrumar a mesa. Tomar um banho. Ficar cheirosa para o João. As roupas todas limpas no varal. O sol havia ajudado hoje. Sobressalto. Por um instante, Maria havia se esquecido que tudo isso estava lá atrás. Num passado muito, muito distante. Agora seus três filhos só iam visitá-la no Dia das Mães e no Natal, com presentes caros e inúteis. E João, ela contava os dias para reencontrá-lo.

Ady Cavalcante

enviada por ZerooreZ






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